sábado, 14 de janeiro de 2017

Eu não quero isso pro meu filho



Em uma das muitas entrevistas do Profissão Repórter, uma garota que era membro ativo da comunidade punk disse que não gostaria que a filha dela vivesse da maneira que ela vive, e quando questionada por qual motivo ela não queria que sua filha seguisse seus passos, ela simplesmente disse que se preocuparia demais com o que ela poderia passar. 


Eu tenho certeza que a maioria das pessoas revolucionarias se identificam com esse pensamento, eu tenho certeza que as mulheres que protestaram, apanharam e provavelmente algumas delas foram mortas para ter direito ao voto ou ao trabalho não gostariam que suas filhas seguissem exatamente o mesmo caminho, porque o caminho de ir contra a maioria é doloroso, e a maior motivação dos revolucionários não é para que eles vivam em um mundo melhor, mas sim para moldar um mundo melhor para as gerações futuras. 

As centenas de jornalistas, artistas, humoristas e cantores que lutaram bravamente durante a ditadura para que seu trabalho não fosse algo criminoso e vítima de censura são responsáveis diretos pelo nosso direito de expressão, talvez se eles não tivessem se organizado naquele momento para ir contra o exército hoje esse texto não estaria sendo publicado, seus canais de YouTube não poderiam estar sendo vistos. Quando essas pessoas lutaram contra a ditadura elas não lutaram apenas por elas, elas lutaram pelos seus filhos e netos, foi uma batalha que mudou o curso da história brasileira, e com certeza eles desejaram que essa mesma luta não fosse vivida pelos seus descendentes. 

Quando alguém diz que não quer algo para o seu filho, ela coloca estampado que as consequências daquilo podem ser duras, mas é necessário que eles saibam reconhecer a importância dessa batalha, e, apesar de ser duro, os pais têm de aprender que os filhos precisam viver suas próprias batalhas.

Não é fácil para um pai entender os motivos que levam um filho a ser Punk, Gótico, Drag Queen e para os mais tradicionais é difícil até mesmo entender coisas que não são escolha para seus filhos, como ser LGBT. Quando um filho assume um estilo muito divergente do que a população considera normal eles podem ser vítima de agressão a qualquer momento, mas essa luta externa já vai ser bastante dolorosa, levar ela para dentro de casa só torna as coisas pior, se a família apoiasse ou pelo menos respeitasse elas tirariam um peso enorme das costas desse jovem, que em algumas situações ficam presos entre decidir se ficam com a família ou com sua jornada pessoal, o que pode resultar em um distanciamento familiar, que infelizmente algumas vezes é imposto ao jovem, já que vários deles são expulsos de casa todos os dias por motivos fúteis. 

O que alguns pais não percebem é que a batalha do filho é pela individualidade, e ir contra isso é ir contra o que ele é e sente, a partir do momento que você se coloca na perspectiva de que seu filho é uma aberração você é o inimigo, você largou as mãos do seu filho e virou o algoz do mesmo junto a todas as outras pessoas que irão olhar torto para ele nas ruas.

Colocar o seu filho acima do que a sociedade pensa dele é amar, colocar seu filho como um ser único é amar em dobro, respeitar a individualidade dele, mesmo que você não a entenda por completo é ágape.