domingo, 19 de março de 2017

Inccubus: Nem toda história tem final feliz

Olá gente, me coloquei uma meta de tentar escrever um romance até o final do ano, e atualmente tenho 3 capítulos e 10 páginas, que na verdade são meio que um prólogo da história, então vou só apresentar pra vocês a sinopse e o primeiro capítulo:


Título: Inccubus
Tema: Terror
Sinopse:
Nem todos os monstros vêm do inferno, nem todos os monstros são catalogados pela igreja, nem todos os monstros são mitologia, nem todos os monstros nascem maus, tudo é uma questão de perspectiva, até onde um demônio é realmente um demônio?


"Como você se imagina daqui a dez anos?"
"Morto..."
 
A casa - Cap 1

Sabe quando você perde a noção do tempo e começa a seguir sua vida como se você fosse realmente eterno? Muitas vezes eu me sinto desse jeito, é interessante como nossa noção de grandeza supera a realidade, supera até mesmo a lógica, nós sabemos que não vamos viver para sempre e que o tempo poderia ser muito melhor aproveitado, e não importa a maneira como você vive, você sempre sabe que você é capaz de ser melhor do que o que você é nesse exato momento.

Eu não esperava me mudar para o interior nunca, mas isso é mais como uma daquelas coisas que nós nunca esperamos que realmente vá acontecer, mas de repente ela acontece e não há muito o que você possa fazer. A primeira coisa que eu pude notar nesse lugar é a mata fechada e a total falta de vizinhança, apesar disso essa era a casa da minha avó, e eu não tenho outro lugar para morar no momento.

A rua era bem conservada para uma estrada deserta, eu já estava no banco desse taxi há pelo menos uma hora sem ver qualquer outro carro passar por nós, mas, mesmo assim, não havíamos nos deparado com buraco algum durante todo o caminho. O motorista era bem calado também, ele parecia me achar um pouco estranho, eu não o julgo, afinal eu fiquei olhando pela janela e usando esse celular a viagem inteira, mesmo que eu não esteja falando com ninguém eu gosto de ficar desse jeito para disfarçar, na verdade eu não gosto muito de contato social, então, talvez, me exilar nessa casa seja realmente o melhor que eu tenha para fazer.

Desde a época da escola eu não me dava muito bem em fazer amigos, então eu sempre usei o celular como um escudo, assim, mesmo que alguém estivesse me encarando, ou querendo puxar assunto eu não saberia. Muitas vezes eu ficava apenas travando e destravando aquele maldito celular por horas, até finalmente ser liberto pelo sinal.

Conforme o carro ia avançando eu lembrava aos poucos dos meus quinze anos, que foi quando minha mãe morreu, foi uma época horrível, ela já estava doente há um bom tempo, e mesmo que não estivesse, perder uma mãe tão cedo é difícil, lembro que meu pai pagou psiquiatra para mim por vários meses, como se isso fosse adiantar em alguma coisa, as conversas eram sempre cansativas, e, em maior ou menor grau, intimidadoras, lembro daquela senhora gorda, alta, e com sotaque estranho, parecia ser do nordeste, que sempre ficava me encarando por alguns segundos antes de lançar alguma pergunta esquisita, que mais parecia ter sido retirada de algum quiz da internet. No nosso primeiro encontro ela se voltou para mim e perguntou com seriedade, como em um interrogatório
Como era sua relação com sua mãe?, eu já sabia o roteiro e todas as respostas que ela esperava que eu desse, então sempre respondia positivamente a tudo que ela me perguntava, lembro também que fora do escritório ela era pastora em uma igreja de uma comunidade não muito longe do hospital, e por diversas vezes ela dizia que o que eu tinha era problemas espirituais provocados pela minha falta de fé — Você sabe que a medicina não pode curar tudo, nem tudo o que você tem é doença, mas é provocado por algum pecado! —, essas falas em tom forçadamente compreensivo me irritavam a ponto de eu me imaginar esfaqueando-a por diversas vezes contra aquela maldita cadeira de couro marrom, já imaginava o sangue escorrendo pelo chão e quando finalmente eu empunhava uma caneta para saciar minha vontade a frase mais libertadora já vista pela humanidade saia dos lábios dessa senhora e vinha em direção aos meus ouvidos — O seu horário terminou, nos vemos na semana que vem, espero que os remédios façam efeito logo —, eu tomava o maior cuidado para não parecer ansioso demais para deixar o consultório, mas era mais forte que eu, e acho que todos percebiam que meu único prazer era voltar pra casa.

Entregue aos meus devaneios não vejo o tempo passar, e percebo que já é possível avistar uma grande casa de aparência velha e decaída, com quintal que apesar de grande estava muito mal tratado, as janelas da casa pareciam feitas de pedra de tanta poeira que havia ao lado de fora, o caminhão das mudanças ainda não havia ido embora, talvez eu tenha chego um pouco cedo demais.

O taxi estaciona na frente do portão, o motorista hesita um pouco até lembrar que eu precisava que ele pegasse minha cadeira de rodas que estavam no porta-malas, pude perceber que ele estava um pouco sem jeito, mas não o culpo, esse não era um taxi preparado para esse tipo de serviço, mas eu não havia marcado essa opção no aplicativo para evitar que demorasse demais para que algum taxi especializado viesse, também sabia que ele não recusaria o serviço, a corrida era muito bem remunerada, dado o tempo da viagem. O taxista armou a cadeira do lado de fora e me ajudou a me sentar, e por sorte o chão não era inteiramente de grama, então pude ir pelas passagens de concreto até a porta. Pouco antes de me mudar havia pedido para que colocassem rampas e um elevador interno para que eu pudesse me locomover na casa sem ajuda, já que eu não sei por quanto tempo eu iria morar sozinho, e também não gostava de ficar precisando da ajuda de ninguém, nem mesmo de enfermeiras, sei que estão fazendo o trabalho delas, mas eu não gosto de ter alguém comigo o tempo inteiro.

Os rapazes que estavam fazendo as mudanças pareciam já ter terminado o trabalho pesado e estavam apenas terminando de arrastar alguma coisa para o devido lugar, mas não demoraram muito tempo, apesar de parecerem um pouco surpresos com a cadeira de rodas agiram naturalmente, e tentaram ignorar a presença dela, já estava um pouco acostumado com essa situação, afinal não é uma coisa que se vê todo dia, mas ao menos agora está explicada a necessidade do elevador.

Apesar do espanto inicial ninguém chegou a questionar como eu vim parar em uma cadeira de rodas, e eu fiquei feliz, odeio ter de narrar a mesma história um milhão de vezes, mesmo que para as outras pessoas seja uma coisa nova, eu vivi isso e já contei mais vezes do que posso me lembrar, hoje eu simplesmente falo que foi em um acidente de carro, sem muitos detalhes, mesmo porque na maioria dos casos ninguém está se importando de verdade, está apenas curioso.

Para esperar que eles terminassem o trabalho eu fui para a varanda ver como era a parte de trás do quintal e da casa, e também tomar um pouco de ar fresco depois da viagem, nem percebi que um rapaz, mais ou menos com minha idade, havia me acompanhado, timidamente ele tenta puxar assunto comigo, — Olá...— ele parecia um pouco cansado, provavelmente montar essa mobília foi bastante trabalhoso.

Ele deveria ter no máximo vinte anos, aposto nessa idade pois ele ainda nem tem barba, e também pelo jeito de se portar, ele usava um penteado da moda, mas não estava penteado, acho que talvez pela manhã estivesse, mas após uma manhã inteira de trabalho ele já estava um pouco acabado.

— Oi, qual seu nome? — Eu não converso com quase ninguém faz pelo menos um mês, acho que até minha voz deve estar soando estranho a essa altura.

— Pode me chamar de Rafa... — Ele também não tinha muita desenvoltura social, o que é estranho, geralmente essas pessoas que trabalham na casa de terceiros são muito boas com as palavras — Me diz como você... — eu não o julgo por perguntar, acho que se eu estivesse no lado dele da história eu também perguntaria, o mais engraçado é que eu estava me queixando disso agora a pouco e a situação se repetiu mais uma vez. Eu poderia ser seco na resposta, mas ele não me parecia má pessoa, e, apesar de termos apenas trocado palavras monossilábicas eu posso dizer que fui com a cara do rapaz.

Não esperei que ele terminasse a frase para lhe contar o que aconteceu, mas como prometi para mim mesmo, eu não me prolonguei em detalhes e nem em consequências, apenas disse o que realmente houve — Eu estava no banco do passageiro, e sem cinto de segurança, a batida foi forte, uma vã acertou o banco do motorista e nos prensou contra um poste, meu pai morreu na hora, e eu quebrei três vértebras da espinha. —

Após eu contar o que houve um silêncio tomou conta da varanda por alguns segundos, as pessoas geralmente não sabem como reagir, é natural que não se tenha uma resposta, mas é socialmente cobrado uma demonstração forçada de empatia, o que para aquele garoto parecia algo difícil de se fazer.

— Nossa. Desculpe-me por te fazer tocar nesse assunto. — Ele parecia um pouco arrependido de ter perguntado, provavelmente por ele ter ficado sem jeito — Essa casa é antiga, mas é linda, não é? — essa foi a melhor maneira para mudar de assunto, afinal eu também estava adorando a casa.

— Realmente, eu nunca vim aqui enquanto minha avó estava viva, então, quando me falaram em casa no interior eu imaginei outra coisa — Acho que todos pensam a mesma coisa quando se fala em casa do interior, mas olhando para essa casa eu me sentia em algum filme de época do século XIX, e o quintal era bastante grande, além de se separar da mata apenas por uma cerca de grades, o que o fazia parecer ainda maior.

Fiquei mais alguns minutos conversando com aquele rapaz sobre o quintal, e o quanto a vizinha mais próxima morava longe. Logo, Rafa começou a me contar que ele não mora tão longe assim, considerando que nessa região todos moram relativamente longe, ele vive pouco depois de Dona Tereza, nossa vizinha mais próxima.

— Dona Tereza teve uma vida infeliz — Ele dizia em um tom sério, apesar de que, praticamente tudo que ele falava parecia distante, ele não costumava demonstrar relação alguma com as coisas — O Marido dela frequentava bastante a igreja local, todos os domingos ele estava na missa, certo dia em uma discussão com seu filho único, Lúcio, ele teve um derrame e morreu. Alguns dizem que Lúcio era usuário de drogas, mas eu andei muito com ele na época da escola e nunca suspeitei de nada, outros dizem que a discussão era religiosa, aparentemente Lúcio havia entrado para uma seita Pagã e o pai dele não aprovou, de qualquer modo, como minha falecida avó dizia Quem conta um conto aumenta um ponto, provavelmente grande parte dessa história foi invenção. — enquanto ele falava ele mordia incansavelmente os lábios, provavelmente pela timidez, e mantinha um olhar distante, como se ele me visse, mas não olhasse para mim, quase como se, mesmo voltado em minha direção, ele me enxergasse pela visão periférica, aquilo me incomodava um pouco, mas não cheguei a questioná-lo sobre isso.

Finalmente os colegas dele vieram nos avisar que tudo já havia acabado e que eles precisavam ir, pois tinham outras mudanças para fazer ainda naquele dia.

Apesar da postura tímida, ou talvez indiferente, ele pareceu desapontado em ter de sair, e eu confesso que também fiquei desapontado, fazia pelo menos alguns anos desde que não conversava com ninguém.

— Gostei bastante de conversar com você — Agora na despedida ele parecia um pouco mais doce em sua fala, e depois conversarmos tanto nós dois já parecíamos mais confortáveis com a presença um do outro, mas eu não imaginava que a conversa fosse tomar o rumo que estava tomando — e você também é um rapaz muito bonito, se quiser sair qualquer dia, me liga, mesmo sendo um pouco longe eu te busco aqui. — Ele não parecia confortável com essa situação, mas ele era um rapaz bonito, e foi muito legal comigo, então, decidi ser recíproco. Aceitei seu telefone e anotei-o em meu braço com uma caneta que ele me emprestou, só depois que ele estava a caminho da sala percebi que poderia ter gravado em meu celular.

— Obrigado, qualquer hora eu te ligo para tomarmos um café, ou qualquer coisa do tipo — Não sei o que deu em mim, mas me entusiasmei com a situação, estava começando a corar e por isso preferi não ir para a sala também e continuei a admirar o quintal. Rafael me retribuiu com uma risada e um aceno, e fora ajudar seus amigos a se organizarem, pela maneira que ele agiu, eu poderia supor que os colegas dele não sabem sobre ele ser gay ou alguma coisa assim, mas de qualquer forma isso não era relevante, e muito menos de minha conta.

 Após todos saírem a casa ainda estava um pouco em poeirada, mas o lugar já estava habitável, dei uma volta por todos os quartos, para checar o lugar e para testar a mobilidade, o primeiro desafio foi ter coragem de entrar naquele elevador, que mais parecia uma gaiola, com a falta de dinheiro eu tive de comprar um elevador antigo, e as engrenagens faziam um barulho muito, mas muito assustador mesmo, parecia com várias correntes sendo arrastadas, mas felizmente eram apenas dois andares, então não havia muito com o que me preocupar, os quartos eram aceitáveis, apesar da pintura descascando e do cheiro de mofo, já os corredores não pareciam tão acabados, provavelmente haviam sido pintados recentemente.

Dei uma volta pelas áreas de concreto no quintal, mas não me arrisquei a ir para a grama, não queria correr o risco de prender a cadeira, ainda mais considerando que sequer tive tempo para contratar um jardineiro ou zelador, por isso ainda estava sozinho em casa, precisava tomar bastante cuidado para não me colocar em perigo, ou pelo menos não me colocar em alguma situação constrangedora.

Andando até os limites do jardim ouço um miado, como se fosse um filhote de gato, sei que não gosto de animais, mas não sou nenhum monstro a ponto de deixar algo desse tipo passar batido. Digo isso porque uma vez, antes de meu acidente, eu estava a caminho do trabalho e vi um filhotinho na chuva, parei e olhei-o, senti que deveria ter-lo ajudado, mas não fiz nada e segui meu caminho, não tem uma só noite que eu não pense em como ele deve estar, ou se, pelo menos, sobreviveu àquela chuva. Olhei ao redor e o som parecia vir por trás de alguns daqueles arbustos, infelizmente eu teria que passar por aquela grama mal aparada com minha cadeira para ver o que estava acontecendo. Após alguns minutos de hesitação saí do concreto e fui em direção ao miado, a grama prendia nas rodas, o que era bem desconfortável e exigia que eu fizesse muito esforço para continuar, quando finalmente cheguei à parte da grama alta já não sabia mais se tinha tido uma boa idéia, e a cena com que me deparei confirmou que não. Vejo uma das cenas mais assustadoras que já vi em minha vida, uma gata morta, com as entranhas expostas, ela parecia ter sido espancada antes de ser morta, pois estava com as patas e o pescoço quebrados, o seu sangue se misturava ao de vários gatinhos completamente dilacerados, de maneira que não se podia dizer qual parte era de quem, restavam apenas suas cabeças, o único gatinho que ainda vivia era de cor preta e parecia assustado, miava alto, mesmo comigo por perto, quando tentava pegá-lo ele se mostrava arisco e não aceitava vir para minhas mãos, e apanhar algo no chão para mim já era algo bem difícil e desconfortável, quanto aos outros não sei se seus corpos foram comidos por algum animal, mas o que mais me chamou atenção foram as velas, e um lenço com uma marca que eu não sei o que significa, mas não conseguia pensar, só queria sair dali, aproveitei o lenço e peguei o filhote com ele para que o gato não me arranhasse, fazer isso de cima de uma cadeira não foi tarefa fácil, felizmente o filhote não correu e consegui apanhá-lo.