terça-feira, 18 de abril de 2017

Poema: Morte Matada ou Morte Morrida?






Hoje eu não respirei direito
Respirei de qualquer jeito
Lembrei da minha mãe
E do jeito que ela me alimentava
Lembrei dos meus sapatos velhos
E da maneira como eles já foram novos
Lembrei dos demônios da vida
E de como eu sobrevivi a cada um deles
Lembrei dos meus namorados
E acabei de reparar que não foram tantos assim
Tentava preservar a moral
Esse foi o mal
Há cinquenta anos eu teria feito diferente
Mas não vou me lamentar 
Tudo que é passado está na lama
Nunca entendi essa de arrependimento
Qual sentido de chorar pelas coisas que já foram levadas pelo vento?
Essa noite eu conheci uma dama
Alta, negra, de cabelos lisos
Apesar de sua expressão triste
Desferia muitos sorrisos
Sua expressão cadavérica me contou a história dos homens
Me levou pra dar uma volta sobre as pastagens
Onde conheci a mim mesmo
E eu não fui muito legal
Mas já é tarde demais pra mudar isso, afinal
Ela me deu uma rosa azul
Contou-me sobre como ela era a única verdade
E que não havia muito o que ser feito
Todo mundo vai morrer de qualquer jeito
Mais tarde fomos a um coral
Vi algumas crianças esperando para nascer
E uns idosos partindo
Vi um adolescente com os pulsos cortados
Ele estava sorrindo
Vi minha mãe e meu pai
Vi meu irmão
E por fim, eu morri
Sem peso algum no coração.